O mundo segundo Woody Allen

O mundo segundo Woody Allen

Quando eu era criança achava que o Woody Allen era um velho babão ridículo. Tinha uma birra enorme porque nos filmes ele sempre era casado com alguma loira linda, apesar de ser feioso e chato. E eu sempre olhava pra ele e pensava: “Quem é a besta que quer namorar esse homem horroroso? Ele acredita de verdade que uma mulher dessa iria gostar dele na vida real?”

Enfim eu achava o Woody Allen um homem ridículo que se aproveitava de sua posição de diretor para expiar suas fantasias mais impossíveis. Eu gostava dos filmes, dava risada, mas sempre achava que o ator poderia ser outro cara. 

Hoje em dia eu vejo as antigas comédias dele e compreendo a profunda relação desse homem com a realidade. Aquilo que antes me parecia ilusão de um velho frustrado hoje em dia me soa mais verdadeiro do que qualquer outro romance de filme. Agora eu vejo claramente. Não há insegurança, chatice ou feiúra capaz de impedir qualquer mulher de se apaixonar por um homem, sejam elas lindas e loiras, seja ele Woody Allen.

Não é verdade que somos instintivamente atraídas pelo macho de porte físico capaz de gerar os melhores descendentes. Não somos bichos e nem artistas de Hollywood. Somos gente complexa que precisa ser entendida em sua complexidade. Precisamos saber que o outro também sofre, também confunde e também não sabe, para daí, tentarmos saber juntos ou nos mantermos de mãos dadas na benção da ignorância. E também queremos palavras doces vestidas com roupas do cotidiano e pequenas anedotas internas, como a lagosta dura de matar em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”.

Para mim, uma cena entre tantas inesquecíveis do repertório de Allen está em “Hannah e suas irmãs”. A certa altura, o personagem de Woody decide se matar mas está tão nervoso que fica muito suado e a arma acaba escorregando e disparando, sem acertá-lo. Atordoado com a possibilidade real de morte ele sai pelas ruas e acaba entrando numa sessão qualquer de cinema só para ficar quieto num canto e poder pensar. Mas de repente, o improvável acontece: ele começa a prestar atenção no filme. Trata-se de uma comédia dos irmãos Marx. Quando começa a rir do humor pastelão do filme, ele percebe que ainda tem motivos para viver, nem que seja apena para dar boas gargalhadas.

A visão de mundo que ele apresenta é genial, ainda mais se lembrarmos que ele é um homenzinho neurótico, deprimido e chato: Não adianta nada viver aflito tentando entender a vida, o melhor é simplesmente aproveitá-la.